sábado, 13 de março de 2010

PADRE CÍCERO & "PADIM CIÇO": O HOMEM, O SANTO, UM MITO.

No dia 20 de julho de 1934 na progressiva cidade de Juazeiro do Norte morre Pe. Cícero Romão Batista. Sua práxis religiosa ultrapassou as fronteiras geográficas do cariri. Em todo o país seu nome é citado, em algumas circunstâncias de maneira controvertida, em outras, cultuada e de forma especial mitificado em toda região do Nordeste brasileiro.
Quem conhece, não fica indiferente ao “fenômeno de Juazeiro” do Norte. Meu “padim” assim cognominado devotamente pelos seus romeiros era sempre reverenciado e acorrido, sobretudo nos períodos de agruras do sertão nordestino, marcado por secas prolongadas, estes devotos viam em seus conselhos soluções evidentes para atenuar a pobreza que rondava o chão seco do nordeste. “Pe. Cícero já estava há apenas cinco anos no Joaseiro quando sobreveio a terrível seca de 1877-1880 que devastou o Ceará e o Nordeste do semi-árido. [sic] A grande seca [sic] foi marcante na vida do Pe. Cícero, como padre de um povoado que chegou quase ser dizimado.”(BEOZZO. 2004).
Ao ser enviado para aquele vilarejo com o propósito de evangelizar. O recém ordenado Padre Cícero jamais imaginaria que seria o protagonista de mudanças significativas na história do cariri e que sua figura fosse transformada em paradigma de santidade e principalmente líder político e religioso da história cearense. O que realmente consta nos anais da história cearense, sobre a prática caritativa do padre Cícero é seu acolhimento a todo e qualquer retirante que marcado pelo sofrimento do clima semi-árido, vinha a juazeiro em busca de socorro para a situação cruenta a qual passava sua família e toda a gente local. Dessa forma o jornalista Xico Sá descreve “Levas e levas de miseráveis corriam para o Juazeiro, arrastados pela fé e pelo assistencialismo religioso do sacerdote.”
Nestas circunstâncias, este presbítero tinha uma sabedoria incomum – encaminhava muita gente parar terras férteis do sertão, para viver da agricultura e de outros meios de subsistência. Ele era conhecedor da geografia da região do cariri e tendo um carisma inconteste, conseguia atrair até Juazeiro a demanda de gente não somente pobre, mas também a admiração de muitos célebres senhores de terras que atentos a petição do devotado presbítero davam guarida em troca de trabalhos agrícolas para muitos retirantes que vinham de outros “rincões” do nordeste, fugindo da seca. Ele sabia que muitas localidades do cariri eram férteis e por intermédio de uma quadra invernosa abundante daria para agregar a casta sertaneja que disposta ao trabalho agrícola, proporcionava o desenvolvimento do vilarejo que sobre a figura eminente do Padre ganhava proporções urbanas.
Um exemplo, muito bem visto que comprova este fato é que o Padre Cícero, havia alugado o Sitio Baixa Dantas - o qual era liderado pelo "beato Zé Lourenço” - para que as pessoas dizimadas pela seca cruel que assolou sobretudo o sertão sul do Ceará pudessem encontrar amparo. Este lugar também servia para assistencializar uma massa muito grande de pessoas advindas de todo o Nordeste que passavam fome, sobremodo devido os efeitos causados pela escassez de chuvas.
Sendo assim, as levas de miseráveis que compunham as vicissitudes do sertão nordestino, encontrava naquele lugar um refúgio - pois sendo este muito bem cuidado pelo beato, amigo do Padre Cícero e tendo estabelecido um modelo de trabalho comunal, tudo o que ali se produzia era de igual modo dividido entre todos. Vivendo todos mantidos por uma economia de subsistência e que qualquer pessoa que ali chegasse era enviada pelo padre a esta pequena comunidade que se tornara um “modelo de sociedade comunal” tendo como base o trabalho comunitário. “Cabia ao beato receber, naquele pedaço de terra arrendada, os desvalidos dos desvalidos, os molambudos, os mais “lascados”, como se diz na língua da região, os sem jeito. Olhos arregalados, um povo só olhos, cacimbas d’alma.”(Ib. Idem.).
Juazeiro cresceu vertiginosamente tendo como suporte a figura emblemática do Pe Cícero. E suplantou em estatísticas demográficas cidades tradicionais como Crato, Barbalha e Missão Velha. Era comum a procura de conselhos por parte dos chefes das famílias que viam naquele homem um “oráculo divino” que profetizava fatos que porventura a própria natureza seguia fielmente seus desígnios. Era compreendido ainda em sua vida terrena como um “ente divino” para todo e qualquer sertanejo.
As peregrinações para Juazeiro tiveram sua gênese com o padre ainda vivo e no exercício de seu polêmico ministério sacerdotal. Ele era um exímio conselheiro e de forma especial muito próximo dos sertanejos que viam nele uma solução imediata para os problemas tanto físicos quanto sociais. A cúpula eclesiástica ainda fincada suas raízes num sistema imperialista falido – não ultrapassava as fronteiras dos púlpitos eclesiais. Por isso, que com atitude diferenciada, muito próxima ao sofrimento desta gente, o padre de Juazeiro foi ganhando a confiança e devoção da massa popular – sobretudo a mais sofrida e consequentemente sendo divulgado como alguém que de tão raro nos meios eclesiásticos – se tornou divino.
É comum se ouvir histórias fruto da oralidade popular acerca dos feitos extraordinários do Padre Cícero. Muita gente de naturalidade carirense – principalmente os mais velhos que tiveram contato com algum parente ou mesmo que viram e ouviram as admoestações de meu “Padim” propagam seus prodígios com profunda continência subjetiva - pois sabem da significância religiosa que este presbítero tem para a vida da gente sertaneja.
O mais curioso é que Juazeiro do Norte cidade situada no sul do ceará se tornou sinônimo de santificação de almas, expiação de pecados e etc. Alguns teóricos afirmam que esta cidade erigida sobre as profecias do Pe Cícero é notoriamente a “nova Jerusalém”. Existe uma mística singular na “cidade santa” onde o Padre Cícero habitou e construiu igrejas e capelas. Quando ainda vivo foi sinônimo de patrimônio espiritual do povo simples – que movidos pela fé e agruras da vida buscavam o refrigério para as vicissitudes de vida cheias de privações.
Contudo, para a hierarquia eclesiástica ele era um transgressor das normas canônicas. Por isso, ele atraiu para si opositores de dentro da própria Igreja que munidos de alguns fatos supostamente milagrosos interpelaram até a Santa Sé para remeter-lhe a interdição de suas funções ministeriais. No caso do milagre da hóstia que quando tomada pelas mãos do próprio Padre Cícero, se tornou repentinamente e misteriosamente em sangue na boca da beata de nome Maria de Araújo, por ocasião da celebração preceitual de uma missa. Este fato foi o “estopim” para muitas represálias sobre a práxis ministerial do Padre Cícero.
Ele foi considerado pela Diocese do Ceará como embusteiro, utilitarista. Protagonista efetivo de supostos milagres para atrair a complacência do povo para si, por intermédio de uma fé ingênua e confrontá-lo com a Santa Madre Igreja.


“Pe. Antônio Alexandrino, como executor e ao mesmo tempo mentor da política episcopal para o Juazeiro, investido ademais da função de administrador da capela, é o responsável maior, junto a autoridade diocesana, pela imagem desfavorável do Pe. Cícero Escreve regularmente por quase dez anos seguidos, pelo menos a quase quinze dias, ao Prelado Diocesano, [sic]. A pretexto de qualquer assunto, teologia, pastoral, finanças, política, a imagem do Pe. Cícero é apresentada sob uma luz adversa. Custa ao padre Alexandrino reconhecer méritos, qualidades e principalmente virtudes no seu colega, submetidos a duras penas canônicas e contínuas calunias.” (BIOZZO. 2004, p. 38).


Mesmo com reservas declaradas da Igreja concernente ao controvertido acontecimento daquela celebração eucarística, a fé popular ao santo de Juazeiro proliferou em proporções consideráveis. Os interditos remetidos pela cúpula eclesial direcionadas ao Pe Cícero até contribuiu para a ramificação ainda mais efusiva de sua personalidade divina. Neste caso, as peregrinações a Juazeiro foram constantes. Gente de toda a parte do Nordeste deixava suas raízes e vinham com suas famílias, munidos da convicção de “fazer a vida” nas terras santas de Juazeiro. Sob a sombra do “Padim” ninguém tinha medo de enfrentar as agruras do cotidiano. Desta forma Biozzo faz a citação de uma carta destinada ao bispado do ceará remetida por Dom Joaquim que relata: “Antes de tudo, devo informar V. Excia. que a suspensão não produziu o efeito que V. Excia. esperava. Continuam as romarias em larga escala e o dinheiro que deixam no Juazeiro é incalculável. Os mesmos exagerados afirmam terem entrado naquele lugar dezenas de contos”.
O povo difundia seus feitos e despertava assim, a curiosidade popular. Neste parâmetro ele sempre era visitado por caravanas oriundas de outras localidades do Nordeste. E muitos presentes e donativos chegavam a sua casa e ele distribuía sempre com os mais carentes. Esta prática assistencialista e localizada fazia dele um “bem feitor” símbolo da caridade divina – sendo muitas vezes interpretado como enviado de Deus, alguém que transcendia a conceitos puramente humanos.
Ele com sua dedicação ao povo sofrido gradativamente no imaginário popular constituira-se na figura iminente de um “mito”. Até mesmo no tempo em que Juazeiro esteve envolvido com uma guerra deflagrada contra o Coronel Franco Rabelo – camponeses e jagunços de todos os recantos do Ceará deixavam suas famílias para se alistar para defender as terras do Padre Cícero das maquinações diabólicas do sórdido coronel. Com a vitória concretizada o Padre Cícero se tornou inconteste na mente do povo sua ligação com o alto, pois segundo os seus devotos ninguém podia fazer frente ou suplantar ao poder divino. Prova disso estava na façanha considerada mais um milagre da vitória bélica dos beatos do “Padim” contra a “besta do apocalipse” como era denominado o Coronel Franco Rabelo.

segunda-feira, 1 de março de 2010

RENOVAÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


A DEVOÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS NO CARIRI


A devoção ao Sagrado Coração de Jesus se manifesta de forma concreta na Consagração que é feita por intermédio de um rito familiar. É um evento comum em muitas regiões do Brasil, mas de forma particular no sertão do cariri, em que o povo influenciado por Padre Cícero cultiva anualmente esta devoção. Não se trata de um evento fora dos padrões católicos, mas tem afirmação da própria jurisdição canônica.


A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é uma das expressões mais difundidas da piedade eclesial, tal como refere recentemente o “Directório sobre a Piedade Popular e a Liturgia” da Congregação para o Culto Divino. Os Pontífices romanos têm salientado constantemente o sólido fundamento na Sagrada Escritura desta maravilhosa devoção.


A renovação se torna um evento que não precisa ser realizada com a presença do padre, pois o próprio povo se reúne em uma determinada casa e oficializa a celebração do rito, tendo como condutor uma pessoa da comunidade que já tem experiência para assim tirar a consagração. O povo em torno do quadro do Coração de Jesus participa e rende-lhes as devidas homenagens; repetem devotamente jaculatórias e cantam hinos alusivos que tornam concreta a fé inequívoca em Jesus ali entronizado. Esta e tantas outras manifestações religiosas típicas do povo campesino, feitas devido à fé popular, também porque desde tempos remotos a igreja não pode atender a demanda das regiões mais longícuas e por isso os ritos são celebrados sem a presença do sacerdote.
Segundo PAZ, 2004. p.12.


O pouco contato com as autoridades eclesiais era uma das características mais pronunciadas do catolicismo naquele período. numa perspectiva mais ampla, seguindo influências da tradição lusitana, o catolicismo no Brasil até meados do século XIX, tem como característica central a essência em atividades para litúrgicas de caráter devocional realizadas coletivamente, tais como festas, procissões, novenas, etc.


O ritual da Consagração tem sua história. Tem um conteúdo em forma de petição e principalmente ofertando a família e residência ao zelo do Bendito Coração de Jesus. O propósito é coloca-lo no lugar mais alto da casa, o qual é denominado de trono, de onde o mesmo pode exercer sua majestade, cobrindo de benefícios toda a família ali residente.


O Ato de Consagração ao Sagrado Coração de Jesus está assim configurado:


SAGRADO CORAÇÃO de Jesus, que manifestastes a Santa Margarida Maria o desejo de reinar sobre as famílias cristãs, nós vimos hoje proclamar vossa realeza absoluta sobre a nossa família. Queremos, de agora em diante, viver a vossa vida, queremos que floresçam, em nosso meio, as virtudes às quais prometestes, já neste mundo, a paz. Queremos banir para longe de nós o espírito mundano que amaldiçoastes. Vós reinareis em nossas inteligências pela simplicidade de nossa fé; em nossos corações pelo amor sem reservas de que estamos abrasados para convosco, e cuja chama entreteremos pela recepção freqüente de vossa divina Eucaristia. Dignai-Vos, Coração divino, presidir as nossas reuniões, abençoar as nossas empresas espirituais e temporais, afastar de nós as aflições, santificar as nossas alegrias, aliviar as nossas penas. Se, alguma vez, algum de nós tiver a infelicidade de Vos ofender, lembrai-Vos, ó Coração de Jesus, que sois bom e misericordioso para com o pecador arrependido. E quando soar a hora da separação, nós todos, os que partem e os que ficam, seremos submissos aos vossos eternos desígnios. Consolar-nos-emos com o pensamento de que há de vir um dia em que toda a família, reunida no Céu, poderá cantar para sempre a vossa glória e os vossos benefícios. Digne-se o Coração Imaculado de Maria, digne-se o glorioso Patriarca São José apresentar-Vos esta consagração e no-la lembrar todos os dias de nossa vida. Viva o Coração de Jesus, nosso Rei e nosso



Esta prática votiva, que acontece anualmente nas casas caririenses (citamos o cariri, traz em seu perfil cultural não apenas a simbologia do ato religioso – mas também pode ser observado fatores como: celebração de aniversário de núpcias; preservação do rito ao sagrado; culto a tradição dos antepassados; valorização dos costumes locais; elo comunitário; prosperidade para a comunidade.
Existe todo um ritual que precede esta festa comunitária; pois a própria família já se encarrega de preparar o ambiente. Primeiro a casa será reformada - feito uma faxina especial - onde todos os cômodos serão pintados, e principalmente o lugar especial onde está (ou será) fixado o quadro do Sagrado Coração de Jesus. Um detalhe curioso encontrado nas casas da região; logo as vésperas da renovação, a sala do santo onde será o lugar da cerimônia, ganha uma ornamentação singular. Ali se expõe uma mesa (denominada de mesa do santo) coberta com uma toalha comumente branca com bordados ao estilo característico do rito. Em muitas residências a parede principal que fica defronte a porta da entrada é pontilhada de quadros de Santos e santas, - contudo o quadro que está sobre o centro é dos ícones do Coração de Jesus e Maria.
A família convida toda a comunidade para a noite da consagração, para assistir a reza e tomar o tão histórico “café do santo”.


A devoção ao Sagrado Coração começou assim: no dia 16 de junho de 1675, durante uma exposição do Santíssimo Sacramento, Nosso Senhor apareceu a Santa Margarida Maria Alacoque e, descobrindo seu Coração, disse-lhe: “Eis o coração que tanto tem amado aos homens e em recompensa não recebe, da maior parte deles, senão ingratidões pelas irreverências e sacrilégios, friezas e desprezos que têm por mim neste Sacramento de Amor”


Os parentes que moram distante vêem para rever seus entes queridos, e durante o dia sentem-se felizes com o clima de festa que se gesta nos alpendres da residência. Existe também um jantar para os familiares - precedendo assim o grande momento - envolto de significados culturais.
Enfim, tudo converge para a pauta da solene celebração. Outro fator importante é que existe uma pessoa “eleita” pela comunidade para rezar as jaculatórias. Todos se reúnem no interior da sala do santo, sobretudo as mulheres que cantam hinos alusivos aos santos de sua devoção. Mesmo não adentrando ao interior da sala, os homens mantêm-se em silencio acompanhando a celebração. A forma de reverenciar o sagrado é algo que impressiona a quem não tem o mesmo costume da localidade. Os senhores mais tradicionais retiram seus chapéus, e se concentram nas ladainhas cantadas pelas mulheres. No final da renovação se houve costumeiramente os “vivas” aos santos que estão entronizados na parede da sala. Todos estes gestos fazem parte significativa do ritual celebrativo.
Logo após o rito devocional é organizado o momento do café do santo, em que se achegam à mesa em primeiro lugar os homens a convite do anfitrião; depois os rapazes e moças e só depois as crianças. Existe de certa forma, um estilo patriarcal de se executar a serventia do café. Ninguém sai sem experimentar do café, pois o dono da casa sai para o terreiro em busca dos convivas, chamando-os a todos, pois é sempre uma alegria recebe-los em sua casa.



Esta panacéia de ritos torna-se sacramental para a cultura do cariri. Por isso, a renovação traz em sua essência uma dimensão de regionalização do sagrado que só quem conhece sabe o real valor destes eventos. A renovação agrupa, congrega sentimentos, faz a comunidade sentir o valor e o significado do religioso em sua história. A religião foge do rótulo “ópio do povo”, pois instiga o povo a ser solidário, instituir alteridade dentro do grupo; fazendo com que todos se conheçam mutuamente

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

As Rejeições do Mundo( Max Weber)

O capítulo XIII intitulado Rejeições Religiosas do Mundo e Suas Direções, contido na obra Ensaios de Sociologia de autoria de Max Weber, um dos mais renomados teóricos, que escreveu a respeito da sociologia da religião e que sua visão considerada “evolutiva”, ultrapassa as visões de autores também renomados como Marx e Durkheim, onde, muitos estudiosos consideram muito mais relevante, a participação de Weber no que se refere às análises feitas na área da Sociologia da Religião. Este está contido de diversos aspectos dicotômicos a respeito de misticismo e ascetismo, de religião e de valores concebidos no mundo. Esses valores nos dar a entender porque dos termos: racionalidades e irracionalidade concebidos por Weber e que tornou possível a clareza deste estudo.
Assim o capítulo supracitado trata de uma análise a respeito da religiosidade na China. Weber neste caso analisa a dicotomia ascetismo e misticismo que apesar da disparidade existente entre ambas elas se aproximam.
O Místico busca a elevação do espírito por meio da ascese e desta forma se contrapõe ao mundo. Neste caso, se desliga de tudo que é material e que é mundano. Busca contemplativamente transcender as barreiras do mundo e assim, o divino se manifesta por vias meditativas no místico. O ascético pelo contrário, está sempre em órbita com o mundo. Contudo na esfera contemplativa na busca pelo transcendente o ascético se aproxima do místico, especificamente no que se refere o misticismo ativo concebido por Weber como renuncias do mundo através da ascese. Só que diferentemente do misticismo há a busca por um Deus supramundano, mas que similar a este, o devoto não se coloca como instrumento, mas como recipiente. Ou seja, o divino se faz presente no místico e o místico no divino.
Neste mesmo parâmetro Weber encontra similitudes entre ascetismo e misticismo em meio à ação do místico voltado para o mundo. É o que ele concebe como um tipo de “misticismo do mundo”, pois assim como o ascético o místico pode se achar que em sua ação meditativa na busca da sublimação este não deva estar fora do mundo e das ordens que o rege.
Outro ponto analisado por Weber entre o misticismo e ascetismo é justamente a questão de racionalidade e irracionalidade. O místico na sua fase meditativa se desliga totalmente deste mundo para entrar em contato com o divino. Este está sublimado a uma condição não mais pertinente a esfera material. Transcendeu para uma esfera espiritual e o divino se encontra manifesto neste. No entanto esta experiência se dar no campo da irracionalidade.
O aspecto racional está mais voltado para o contexto do ascetismo no caso das chamadas religiões proféticas. Nestas religiões fica claro que as formas de rejeições do mundo ganha um novo direcionamento. Partindo do pressuposto que os profetas se contrapõem a ordem hierárquica vigente, que estes no intuito de pregar a salvação busca o bem do próximo como deseja a ele mesmo, ajudam as viúvas e auxiliam os que necessitam,e, desta forma foi-se gerando uma ética religiosa baseada na fraternidade e na ética da boa vizinhança, visando com isto alcançar a salvação. Assim as ações religiosas se dirigem para o âmbito da racionalidade. Desta forma surgem, nos diversos fatores da vida humana, várias tensões que se estabelecem entre a religião e o mundo e que servirão de base para a análise de racionalidade de Weber.
Essas tensões se dão na relação entre religião e as diversas esferas que compõem a vida humana. Tais como: a economia, a política, a estética, a esfera erótica e a esfera intelectual. Em todas estas fica visível o teor de racionalidade estabelecida, ora quando a religião se opõe e interfere, ora quando a religião serve de base para um desenvolvimento ético no âmbito dessas esferas visando o comportamento humano.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O MOVIMENTO ADVENTISTA

Não se pode falar do movimento adventista, sem que possamos lembrar de uma figura importante que se destacou como um verdadeiro líder religioso, incumbido de prontificar as almas para a segunda vinda de Jesus Cristo, que seria o advento. Assim, guiados por Guilherme Miller todos se preparam para a chegada de Jesus, que estava por vir naquele dia 22 de Outubro de 1844, o qual ficou conhecido como “o grande desapontamento”.
A origem do movimento adventista apresenta-se na primeira metade do século XIX, nos Estados Unidos, vinculada ao millerismo que empolga várias igrejas protestantes. Miller, ainda que não pretendesse fundar dissidência, foi compondo por comparações entre textos bíblicos, uma interpretação, a partir do livro de Daniel, que estabelece, através de um cálculo profético, uma cronologia que conjuga a história profana com a sagrada, visando a interpretar a profecia “das 2300 tardes e manhãs”, o que levou a sucessivas marcações de datas para a volta do Messias, surgindo assim uma corrente numerosa de adventistas.


“A base do adventismo era Daniel 8:14: “ Até duas mil e quarenta tardes e manhãs e o Santuário será purificado. Como um dia profético equivale a um dia literal (Números 14:34; Ezequiel 4: 5,6 e o período começa no ano do decreto da reconstrução de Jerusalém (Daniel 9:25/457 a.C) que se estenderia a 1844, quando o santuário, que se acreditava ser a Terra, seria purificado pelo fogo da segunda vinda de Cristo”.(DINIZ, 2008. p.14)


Miller, entendendo a "purificação" como volta do Messias e, muitos outros pregadores igualmente, marcaram data para o evento. Após muitas retificações, as comunidades adventistas aguardaram o Messias para 22 de outubro de 1844. A não ocorrência da profecia ficou sendo chamada de "o grande desapontamento" pelos adventistas. Embora muitos abandonassem a doutrina do advento, permaneceu um pequeno número de adeptos do adventismo que efetuou sob a confirmação de Ellen Harmon White, que passara a "receber visões" - por ela mesma considerada testemunhos -, uma retomada do universo simbólico, ainda disperso, mas que viria a se tornar nas "verdades fundamentais" da futura Igreja Adventista do Sétimo Dia, entre as quais constam as doutrinas do santuário, da guarda do sábado, da mortalidade da alma e a reforma de saúde, como as principais.


“Milhares que participaram da amarga experiência de 1844, desalentados, voltaram às suas igrejas de origem ou continuaram a marcar outras datas para a vinda de Cristo. Outros, que haviam entrado para o movimento apenas por algum interesse particular, abandonaram a causa por completo. Porém, outro grupo resolveu voltar à Bíblia em busca de respostas”.[1]


O millerismo empolgou os estados da Nova Inglaterra, atingindo Nova York, Filadélfia, Ohio, Michigam e chegando igualmente até o Canadá. Os futuros pioneiros da igreja, em grande parte, assistem a sermões de Miller, mais tarde iriam efetuar correções em suas interpretações e ampliar o alcance da ênfase profética, representando paulatinamente, uma cronologia mais rica, para a qual convergem inúmeras profecias e que visam a priorizar o profano e o sagrado em movimentos que sucedem com atributos específicos através dos quais chega-se ao “tempo do fim”, tempo que corresponde a várias interpretações da divindade na história humana e comissionamento que pela ação, a tornam caminho da salvação.
Os poucos adeptos que restaram do adventismo, vendo que a sua luta não era em vão, e que haviam cometido um erro ao interpretar as profecias não desistiram, voltando novamente para a Palavra de Deus – a Bíblia, no intuito de entenderem por que o Messias não apareceu naquele dia 22 de outubro de 1844. Relutantes, e convictos de suas idéias adventistas, foram expulsos de suas igrejas de origem e daí em diante, fundaram um movimento forte, que viria posteriormente marcar a trajetória da Igreja Adventista do Sétimo Dia para sempre.
Os fundadores do adventismo, não tinham uma estrutura religiosa sólida baseada em princípios e regras, mas para que a missão de preparar as pessoas para a vinda do Messias fosse profícua era necessário fincar base nas Escrituras Sagradas. O alicerce da fé adventista está toda sobreposta nos escritos bíblicos e também como auxílio para preparar o cristão para a vinda do Cristo de forma que todos pudessem estar puros de alma e coração, os adventistas iniciam trabalhos através de serviços sociais como: palestras contra drogas – fumo e álcool, a educação, a distribuição de panfletagem que auxiliava nos contágios e tratamentos de algumas doenças e etc, além de propagar a palavra de Deus. Trabalhavam também com os serviços de colportagem vendendo livros e revistas que tratava de assuntos sobre doenças, drogas, a bíblia e sobre os fins dos tempos.
Desta forma, baseadas nas escrituras sagradas, em 1863 o movimento adventistas se organiza em Assembléia Geral baseada nos princípios bíblicos principalmente, criam a Igreja Adventista do Sétimo Dia que cumprindo com os escritos sagrados guarda o sábado como dia do Senhor. Pois está escrito no livro dos Gêneses que Deus criou o mundo com tudo o que há e no sétimo dia ele descansou.


“Posteriormente, em 1863, os adventistas (agora Adventistas do Sétimo Dia) adotaram a Reforma Pró-Saúde, abstendo-se do fumo, álcool, carnes imundas (como a do porco – ver Levítico 11) e de tudo que prejudica o “templo do Espírito Santo” – o corpo humano. O passo seguinte foi obedecer às palavras de Jesus em Marcos 16:15: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” Conscientes disso, os adventistas passaram a proclamar pessoalmente, em conferências públicas ou através de publicações, suas convicções religiosas: Jesus como único Salvador pessoal; a volta de Cristo como única solução para um mundo em degeneração; a imortalidade condicional do ser humano; a aceitação da Bíblia como única regra de fé e prática;[...]”[2]


[1] Encontrado no site: http://adventismo.blogstop.com/2006/01/capitulo-2-o-avanço-da-mensagem.htm. A Chegada do Adventismo no Brasil, BORGES, Michelson. Tatuí – São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2000
[2] Encontrado no site: http://adventismo.blogstop.com/2006/01/capitulo-2-o-avanço-da-mensagem.htm. Chegada do Adventismo no Brasil, BORGES, Michelson. Tatuí – São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2000.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

EX-VOTOS E A SIMBOLOGIA DO MILAGRE EM JUAZEIRO DO NORTE-CE

Fotografia de Silvério

Ana Cássia Félix de Sousa (Bolsista de Iniciação Científica da Universidade Regional do Cariri/Fundação Cearense de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – URCA/FUNCAP)
Dra. Anna Christina Farias de Carvalho (Professora Adjunta da Universidade Regional do Cariri – URCA)

INTRODUÇÃO: A Presente proposta de estudo se insere no Grupo de Pesquisa Sociedade e Sistema Simbólico do Núcleo de Estudos Regionais da Universidade Regional do Cariri (NERE/URCA) dentro da linha de pesquisa Devoções Populares. Esta pesquisa objetiva investigar um dos aspectos das práticas culturais religiosas do Catolicismo Popular relacionadas ao pagamento de promessas através de ex-votos, no universo religioso do Cariri cearense. MATERIAL E MÉTODO: Trabalhamos com a História Oral e Memória, levantamento bibliográfico sobre o tema, registros fotográficos, entrevistas com promesseiros, romeiros e devotos que depositam seus ex-votos na Casa de Milagres Padre Cícero, em Juazeiro do Norte-CE. RESULTADO E DISCUSSÃO: Nosso estudo nos reportou ao universo multifacetado da Religiosidade Popular e ao universo do fiel em íntima comunhão com o sagrado, através de práticas e rituais devocionais, especificamente ao pagamento de promessas, que nos remete a um mundo onde a sacralidade, o divino, o sobrenatural, é a única solução para resolver os males que assolam o cotidiano de milhares de pessoas. CONCLUSÃO: A partir do levantamento de dados, podemos inferir que os ex-votos representam a esperança da concessão da cura e o agradecimento por uma graça alcançada.

Palavras-chave: Catolicismo Popular. Ex-votos. Cariri cearense.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O PROTESTANISMO NO BRASIL

igrejaluteranadeipatinga.blogspot.com/2009/10


Acredita-se que o protestantismo tenha chegado em território brasileiro através dos imigrantes alemãos que vieram para o Brasil habitar a região do Rio Grande do Sul. Era fim do século XIX e a República já havia sido proclamada. Anterior a este fato, a religião oficial válida em todo o território, era a católica, pois os colonizadores vindos da Europa introduziram o catolicismo na nova colônia portuguesa e não admitiam nenhum outro tipo de religião ou cultura, abominando as crenças dos nativos e dos africanos que vieram como escravo para trabalharem na colônia portuguesa. Também não admitiam qualquer outro tipo de fé. Com isto iniciaram incessantemente o período de catequização dessas duas raças. Porém é importante salientar, que apesar dos esforços, não teve como manter um catolicismo “puro”, baseado nos princípios romanos, pois não foi possível evitar a mistura de crenças dos três povos: portugueses, africanos e indígenas.


“O catolicismo só deixou de ser a religião oficial do Estado brasileiro no final do século XIX, quando a monarquia foi substituída pelo regime republicano, o qual abriu mão sem mais da religião oficial. A república velha desferiu um golpe mortal no regime do padroado, ao separar juridicamente a igreja católica do Estado nacional. Este foi, desde então, declarado laico. Isto é, religiosamente neutro, religiosamente isento, religiosamente abstrato”. (GAARDER, NOTAKER e ELLERN, 2004. p. 282)


Com a separação das duas instituições supracitadas, se torna então possível a liberdade religiosa. Desta forma possibilitou a introdução do protestanismo no Brasil, assim como outras crenças religiosas. Porém na mentalidade das pessoas, gravados nos recônditos de suas memórias, todo aquele que não professava a fé católica era tido como filho do demônio ou mandado pelo mesmo para desencaminhar as boas almas. Neste caso torna-se difícil, quase que impossível plantar a fé protestante em um país onde a totalidade da população, ainda que camufladamente – como os africanos – comungavam da mesma religião – a católica.
As primeiras iniciativas em trazer o protestanismo para o Brasil, veio por meio dos imigrantes alemãos que eram membros da Igreja Luterana que foi a pioneira – primeira igreja protestante a ser fundada no Brasil com o nome Igreja Evangélica Luterana do Brasil. Depois destas várias outras denominações foram surgindo ao longo do tempo, muitas com ramificações da Igreja Luterana, e outras como a igreja anglicana e as epsicopais.


Segundo Gaarder et al o protestanismo no Brasil se divide em dois aspectos: O Protestanismo de imigração e o protestanismo de conversão. Este último tem a intensão de converter as pessoas e adquirirem mais adeptos através da pregação da palavra de Deus em meios a tantas vicissitudes, mas crentes de que as pessoas estão sendo transformadas e almas estão sendo salvas em favor do evangelho e da fé em um único senhor- Jesus Cristo. Conforme Gaarder todas essas denominações saiam em missão pelo mundo para difundir a palavra de Deus culminando assim as variadas denominações.


No século XVII, surgiram numerosos movimentos que se cristalizaram em novas comunidades eclesiais com muitas características comuns. Os batistas, os adventistas e os pentecostais, rejeitam o batismo de crianças em favor do batismo de adultos, que inclui a imersão total na água. Os petencostais se subdividiram em várias congregações como por exemplo: a Congregação Cristã do Brasil, Assembléia de Deus, Deus é amor e etc.
Cada uma destas congregações tem seus princípios e preceitos tendo além do batismo imerso nas águas, as escrituras sagradas como “sacramento” a ser seguido tornando-se base principal de sua fé, a crença em um único senhor e salvador e a Escrituras Sagradas como a Verdade a ser propagada. Porém, um único denominador comum une protestanismo e catolicismo – o cristianismo – todas em meio a tantas denominações e congregações buscam uma única verdade: Cristo.
É importante destacar que, além do protestanismo a segregação do Estado e da Igreja promoveu a inclusão de outras religiões.


“Nunca houve tanta liberdade religiosa no Brasil como agora. Nunca antes as religiões foram tão livres para se estabelecer, competir entre si e se propagar como agora; o Brasil começa hoje a ver os efeitos dinamizadores que a liberdade religiosa tem trazido para o campo das religiosidades quando elas se põem em livre concorrência.” (GAARDER et al, 2004. p. 283)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ainda Durkheim, Ainda Religião ( Pierre Sanchis)



No texto intitulado Ainda Durkheim Ainda Religião, do escritor Pierre Sanchis é notória a admiração do mesmo pelo sociólogo Émile Durkheim e seus escritos. Sanchis pretende com este artigo fazer um resgate do pensamento de durkheiminiano e busca fazer uma analogia ao tempo que estamos vivenciando. Em outras palavras, procura resgatar para os dias de hoje o conceito de sagrado e religião dos quais Durkheim com muita destreza postulou na sua obra As Formas Elementares da Vida Religiosa.
Sanchis começa por fazer uma retrospectiva da obra primeira de Durkheim As Regras do Pensamento Sociológico, segundo o escritor Durkheim se mostra preocupado com a questão do misticismo que naquela época estava renascendo no seio daquela sociedade. Porém o pensamento de Durkheim está mais voltado a questões de racionalidades, onde consequentemente acaba por contestar este misticismo e dar credibilidade ao racionalismo científico que é ponto marcante das sociedades modernas e que segundo Durkheim este transformará o campo ético e político da sociedade. O comportamento ético e político ainda se achavam arraigados a princípios de origens religiosos, no entanto através da razão, do racionalismo científico por assim dizer, de uma “operação racional e da formação de uma escola laica a sociedade seria de uma vez por todas liberta do “estorvo da religião,” assim ajuizava o sociólogo
Porém o ensino laico parece não se efetivar. Há certa desordem no que diz respeito a ética e ao comportamento moral das pessoas. A saúde moral estava sofrendo de uma grande enfermidade. Não havia mais respeito ético, moral e político pelo próximo e para com o próximo. A causa maior desta insanidade estava então no ensino laico que não teve fundamentos concretos para efetivar-se e para garantir uma sociedade com saúde moral perfeita. Para que a moral e a ética fossem de tal modo respeitados e praticamente exercidos tinham que ter suas bases fincadas na religião, assim reconheceu Durkheim. Estas não sobrevivem no seio da sociedade se não estiverem encravadas a princípios religiosos. “Para funcionar como cimento de uma nova sociedade a sociedade deve se revestir d’uma aura religiosa”, assim reconhece o sociólogo.
Em As Formas Elementares da Vida Religiosa, Durkheim ao contrário da sua primeira obra, ele ajusta sua forma de pensamento quanto no que se refere ao campo sagrado e se volta para a temática religiosa que antes ele havia negado, mas também ressalta a importância da ciência para o campo da razão. Porém neste recente estudo ele não coloca a religião como algo que está acima de tudo e de todas as coisas, nem tampouco dar supremacia a ciência, mas mostra a relação entre estas duas naturezas de forma que nenhuma possa vir a aniquilar a outra, tendo cada qual a sua relevância tanto para o indivíduo tanto quanto para a sociedade.
Durkheim reconhece de fato que o ser humano não pode viver sem religião. A religião é base para explicar o comportamento humano. Quando o homem se encontra eivado de fé este, tudo pode. Ele se enche de um poder que é sobrenatural que o mesmo se achando descrente não teria tal competência. A religião é a força renovadora que transforma, que salva, que dar ânimo. É através da religião que o ser humano encontra forças para superar as dificuldades, as vicissitudes e sofrimentos da vida cotidiana. E como refere-se o texto de Sanchis que tem por base Durkheim “o homem que vive religiosamente é antes de tudo um homem que experimenta o poder que não se conhece na vida comum, que não sente em si mesmo quando não se encontra em estado religioso”
A análise de Sanchis, neste pequeno artigo, apenas não só mostra questões relacionadas entre ciência e religião, mas trata também das categorias, do eterno na religião, da sociedade real e a sociedade ideal e da distinção entre sagrado e religião. Na verdade este trabalho é síntese esclarecedora da obra de Émile Durkheim onde compreendemos de forma elucidativa as questões postas pelo mesmo na Vida Elementares.
O rito o qual é retratado com mais ênfase por Sanchis é um dos elementos considerados eterno na religião, que existe nela e subsiste nela perpassando a cronologia dos tempos primitivos e se fazendo presente nas religiões mais contemporâneas. O Rito é o que dar vida e permanência a religião. É um produto da coletividade. Através do rito a sociedade se “faz e se refaz periodicamente”. É por meio do rito que a fé se cria e se recria. O rito tonifica, renova e dar constância a religião, mesmo sendo este de caráter repetitivo, mas que é através desta repetitividade que a fé se sustém e que avigora a religião.
No que se refere à sociedade real e ideal, o autor tece duas concepções a real no caso seria o que se tem de concreto na sociedade. O que de fato podemos ver sentir e viver. È o que a sociedade tem de tangível. Esta sociedade coexiste com a sociedade ideal e está “constituída pelos indivíduos que a compõe, pelas coisas que usam e pelos movimentos que utilizam”. Já a sociedade ideal esta, porém existe “antes de tudo pela idéia que ela se faz de si própria”. E esta dicotomia também está presente na religião, pois sendo o homem capaz de conceber o ideal e acrescer ao real, esta também é transposta para a esfera religiosa onde o sagrado como realidade ideal coexiste com a realidade real.
Enfim todos estes elementos dos quais vimos, fazem parte de um contexto social que é criado pelo indivíduo, mas que se transfere para a coletividade. Não existe sociedade sem uma ação coletiva. O indivíduo não existe por si só. Sem o outro e sem a ação do outro não há possibilidades de existir vida social. Assim também é a religião. Ela necessita para a sua sobrevivência de uma aceitação coletiva. Na verdade ela é fruto desta ação. Ela nasceu de uma necessidade individual do ser humano, mas que pra existir de fato como uma realidade real, precisa se revestir de termos criados e recriados pela coletividade no seio de uma sociedade concreta.
Neste contexto para finalisar frisamos o objetivo central de Sanchis que é perceber que todos estes elementos estão presentes nas religiões mais contemporâneas mesmo sendo estes frutos das origens mais remotas da vida religiosa. O que se nota na verdade é que o estudo de Durkheim partiu de pressupostos relevantes pertinentes as religiões primitivas, mas que foram recriados nas instituições religiosas modernas e que até hoje permanecem como elementos eternos.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

RESENHA: A DESECULARIZAÇÃO DO MUNDO: uma visão geral ( Berger)

O autor introduz o texto fazendo uma crítica diplomática sobre um projeto fundamentalista fomentado pela empresa MarcAtur. Este projeto foi, no entanto considerado por Berger como algo que não tinha tamanha relevância em mover milhões de dólares para se pesquisar sobre o fundamentalismo religioso.
No seu discurso sarcástico, o autor levanta conjecturas no intuito de compreender para que este projeto foi elaborado. O mesmo faz vários questionamentos e dar a resposta de uma forma que evidencia a sua crítica.
Berger com este trabalho tenta demolir a tese de que o mundo está secularizado. A idéia de que o aspecto da religião tenha se tornado algo comum e que tenha sofrido um declínio ao longo dos anos tornando-se um mundo menos religioso o que de fato “é mentira”. Berger considera o mundo atual tanto religioso quanto antes. Se com o surgimento da modernidade as crenças, a busca por um ser divino e sobrenatural sofreu uma grande decadência por conta dos adeptos, este problema está mais ligado a instituição religiosa e não as crenças ou a fé das pessoas. A modernidade causou grandes impactos com as instituições, principalmente aquelas que tentaram se adequar a esse mundo moderno, enquanto as que continuaram com seu tradicionalismo conseguiram se sobressair.
Berger reforça a idéia de que a questão do mundo hoje continuar mais sagrado, é pelo fato de que nas pessoas o sentimento religioso não morreu, nas suas mentalidades ainda cultuam e buscam a imagem do sagrado para a compreensão e explicação das coisas que acontecem. As pessoas sentem necessidade de algo divino que possa lhe dar esperança, melhoria de vida, resoluções de problemas e a busca por salvação. Com isto há vários surtos de fenômenos religiosos que cresce exacerbadamente em número de adeptos e tornam-se mundialmente conhecidos. Um dos exemplos é o fenômeno evangelista.
Berger analisa que na religião internacional o evangelismo está cada vez mais desenvolvido, isto dar-se por conta que estas religiões não caíram no erro de se adequar a modernidade. No texto é citado vários exemplos como o judaísmo, o islamismo, o budismo que são tratados como surtos ou fenômenos religiosos. Com esta análise logo Berger nega o fato haja a secularização. Existem muitos movimentos religiosos semelhantes, daí ele fala de uma contra secularização que seria o oposto, tudo como uma volta do sagrado. Porém quando Berger fala de contra secularização de uma possível reação as forças secularizantes, logo ele reafirma que existe ou existiu a secularização tese da qual ele lança várias críticas.
Segundo Cecília Mariz na interpretação deste texto de Berger ele não nega nem um termo nem outro, mas ela explica o que Berger tenta propor em relação a estes dois cursos é que ambos são “frutos da relação dialética entre religião e modernidade”. Para a autora o autor reconhece que o termo secularização é uma “dimensão que marca a sociedade contemporânea” porém é ainda limitada.
Berger refere-se sempre no seu texto para que fim está voltado o seu estudo que se resume em analisar os surtos de fenômenos religiosos que tem crescido significativamente e ganhado forma no mundo modernizado. Com isto, cita dois exemplos – o evangelismo e o islamismo. Berger neste momento descarta o termo fundamentalismo, pois para ele, usar este termo ao comparar as duas religiões seria impróprio.
No caso do islamismo, a religião tem uma quantidade de adeptos fora do comum, porém só aderem estas religiões os povos originários do Oriente Médio ou ainda os muçulmanos que moram em outros países. Enquanto que o evangelismo, os seus adeptos abrangem todo o mundo e podendo aderir-se a este movimento qualquer tipo de pessoa.
Segundo Berger ao analisar as relações entre ambas as religiões e a modernidade, o islamismo, apesar da cultura e dos costumes islâmicos, voltados especificamente para o âmbito religioso, “este não é menos modernizado” ou atrasado, mas faz-se necessário entender que no contexto do Oriente Médio e no âmbito da própria religião islâmica, há diferenças religiosas e políticas, havendo entre estas convergências ou divergências que dependem muito do lugar e das relações políticas que exercem e ainda as relações com as diversas realidades modernas.
Acrescentam-se ainda outras diferenças entre o evangelismo e os fundamentalistas mulçumanos, que segundo Cecília Mariz, os muçulmanos formam um estado religioso, enquanto que os evangelistas não tem essa pretensão e os seus adeptos se encontram espalhados por todo o mundo, principalmente na América Latina onde este fenômeno aconteceu com maior intensidade.
Segundo Cecília Mariz este texto é um pedido de desculpas por Berger em alguns dos seus trabalhos ter optado por defender a idéia de secularização, porém neste ele não a nega definitivamente, mas procura compreender como o processo de secularização e desecularização estão ligados a modernidade e ao fundamentalismo.

domingo, 13 de dezembro de 2009

HISTÓRIA TAMBÉM É CULTURA: Nova Olinda e Santana do Cariri



A Região do Cariri é privilegiada pelo seu acervo historiográfico riquíssimo, onde todas as histórias locais dos municípios caririenses estão eivadas de mitos e lendas que contam a gênese do Homem Kariri. Um exemplo vivo é a Casa Grande de Nova Olinda, hoje conhecida como Fundação Casa Grande e no século XVIII, Casa de Tapera, que deu Origem ao povoado de Nova Olinda.
A História da fundação desta cidade está intimamente ligada a Casa Grande, que fora construída ainda no século XVIII. Feita com material de tapera, contendo apenas duas paredes servia de abrigo para comboeiros que por ali passava. Neste tempo, conhecido aqui no Ceará como “o ciclo do couro”, a região se tornou muito privilegiada, por ser propícia para a plantação de pasto e a criação do gado. Daí então, começa o povoamento da cidade, onde, as pessoas vinham e se arranchavam na pequena tapera, que foi ficando cada vez maior e parecida com as casas grandes de fazenda. Foram construídos ao lado da casa uma igreja e um cemitério. Com o tempo as pessoas que vinham para este local foram construindo suas residências e formando o povoado que passou a se chamar Fazenda de Tapera.
Como todo o acervo historiográfico da região tem muito de mitologia, conta a lenda que um certo padre que vinha de Olinda, Pernambuco, estava por ali de passagem e foi pedir abrigo na casa, logo o pedido lhe fora negado e o padre ficou a mercê na calçada da igreja. As pessoas do pequeno lugarejo pediram ao padre para derramar a sua benção sobre o local e dar-lhe um novo nome, pois aquele era um tanto feio. Nesta ocasião o clérigo nomeia o lugar de Nova Olinda, para que as pessoas lembrassem que ali lhe negara abrigo. E num discurso profético faz um prenuncio de que aquela casa nunca deixaria de ser de tapera até a sua quinta geração.
Passado um século a casa foi comprada por um senhor e uma senhora que tinha cinco filhos fruto do seu enlace matrimonial, e mais dois adotivos. Daí em diante a casa foi passando de geração em geração, sobre os cuidados deste tronco familiar. Atualmente, está sobre a tutela de Alemberg Quindins, neto de Neco Tranjano e dona Santana, e sua esposa Rosiane Lima Verde, que reformaram a casa, e com o desejo de resgatar a história do homem cariri, transformou a casa em um Memorial do Homem Cariri, onde conta todo o percurso da história dos nativos da tribo Kariri, sua arte, sua cultura e seus costumes. Além de retratar toda a história da Cidade de Nova Olinda.
A casa desde 1992, é conhecida como a Fundação Casa Grande de Nova Olinda, onde dispõe de vários projetos educacionais que subsidiam crianças pobres da cidade e dos arredores. E tornou-se Patrimônio Histórico da Humanidade.
Outra história interessante é a de Santana Do Cariri que está registrada no Museu da cidade, no Museu dos Fósseis e no Pontal de Santana.
O Museu da cidade retrata a história de um Coronel muito renomado de Nome Felinto. Ele vivia em guerra com outros coronéis da região, que vinham invadir a sua casa. Prova disto, é que a casa do coronel Felinto é toda protegida, desde o teto até o piso de madeira, que em baixo, contém um grande sóton, onde os residentes da casa se escondiam nos tempos de invasões. O sóton contém várias entradas para a passagem de ar, que são discretos buracos, em formato de hélice, muito bem arquitetados. E o teto todo coberto de madeira e a conzinha com teto de bronze, tudo muito bem idealizado.
As peças contidas no Museu fazem parte da historia dos moradores da casa, onde são expostos móveis antigos pertencentes aos familiares do coronel Felinto. Na cozinha há uma mesa imensa de madeira (cedro) e ali dispunham de muita fartura no banquete, pois contam que chegavam a comer um boi por dia.
A Casa lembra muito as construções de modo barroco, e tem uma vista muito bonita, cheia de portas e janelas que remonta a arquitetura das casas de fazendas do século XVIII.
Já o Pontal de Santana é um lugar belíssimo e é ponto turístico da cidade de Santana. Conhecido como Pontal da Santa Cruz é um ponto de observação privilegiado, localizado próximo à cidade de Santana do Cariri, acima do povoado Cancão Velho, de onde é possível ter uma vista panorâmica da região. O Pontal, posicionado a uma altitude de 750m, impressiona pelo contraste entre as cores avermelhadas de sua composição rochosa, e o verde da densa mata que o circunda.
OMuseu de Fósseis, também é marcante, pois contém o mais rico acervo fossilífero da região, onde se encontram diversos animais cristalizados nas rochas entre os quais estão insetos, peixes, sapos, plantas e etc. Dentre vegetais, alguns apresentados se encontam extintos assim como animais também a milhões de anos extinto, a exemplo os dinossauros.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

"A PRECE"



Esta é a mais verdadeira descição sobre a prece... Eu diria que se "prece" tivesse biografia, esta a resumiria. É algo extraordinário e por que não dizer "ordinário" no sentido de que faz parte do nosso cotidiano. Se você conseguir parar para imaginar, verá que em tudo na nossa vida fazemos um pouco de prece, muitas vezes, tal como está descrita.
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"De todos os fenômenos religiosos, poucos há que, mesmo se considerados apenas externamente, dão de maneira tão imediata como a prece a impressão da vida, da riqueza e da complexidade. Ela tem uma história maravilhosa: partindo de baixo, elevou-se, aos poucos, até os cumes da vida religiosa. Infinitamente flexível, revestiu as formas mais variadas, sucessivamente adorativa e constrangedora, humilde e ameaçadora, seca e abundante em imagens, imutável e variável, mecânica e mental. Desempenhou as funções mais diversas: aqui é uma petição brutal, ali uma ordem, albures um contrato, um ato de fé, uma confissão, uma súplica, um louvor, um hosana. Às vezes, um mesmo tipo de oração passou sucessivamente por todas as vicissitudes: quase vazia na origem, uma se apresenta um dia cheia de sentido, outra, quase sublime no inicio, reduz-se, aos poucos, a uma salmodia mecânica". (Marcel Mauus)